“Já era tarde e a minha insônia como sempre persistia em estar presente, na verdade ela era a minha única companhia em noites frias como aquela. Eu estava só de calcinha e com uma blusa da minha banda preferida. Eu nunca gostei de usar muita roupa enquanto estava em casa, nem em noites frias. Como de costume estava com um cobertor me cobrindo por inteira, só com a cabeça e os pés para fora — sinto muito calor nos pés, isso deve ser de família —. A TV estava ligada, estava passando um daqueles filmes infantis que eu já havia assistido milhares de vezes com os meus primos, mas cara, eram quase 2am que tipo de criança ficava acordada até a essa hora? — ok, hoje em dia a maioria delas —, mas eu não estava ligando para o filme até por que eu também não estava prestando atenção, eu estava ali mas os meus pensamentos estavam longe, muito longe. Estava lembrando de um antigo amor, um amor de quando ainda tinha uns quinze anos e meio — sim, quinze anos ‘e meio’, deixa eu te explicar melhor: eu sempre quis crescer, ter uma casa, um trabalho, ter a minha vida, e por isso o ‘e meio’, toda vez que me perguntavam a minha idade eu respondia ‘eu tenho quinze anos e meio, tenho quase dezesseis’ mesmo se só tivesse passado um dia do meu aniversário eu sempre ‘quase’ tinha um ano a mais, sempre querendo ter mais idade, querendo ter independência, era uma criança muito ingenua, coitada, mal sabia que ser independente tem lá seus males, mal sabia que crescer não era tão vantajoso como parecia ser, bem, todas as crianças pensam em crescer, mas não deveriam, então voltando ao meu antigo amor… — eu nunca o esqueci completamente, até hoje em alguns lugares eu lembro do riso dele e dou um leve sorriso lembrando como eu era feliz ao lado daquele garoto do riso gostoso de se ouvir, na verdade eu nunca amei alguém com a intensidade que eu o amei, até hoje. Nem o cara que fez uma tatuagem com o meu nome no peito depois de uma transa — talvez por que eu seja muito boa de cama ou uma pessoa fácil de se apaixonar, pensando bem acho que a primeira seja mais provável — depois de alguns meses eu o mandei embora, mesmo com a prova de que ele estava mesmo apaixonado por mim eu não queria um idiota como aquele na minha cola. Teve outro também que eu conheci no bar da esquina de casa, bar bem frequentado, ele namorou comigo por quase dois anos e morou em casa mais ou menos cinco meses, e me pediu em casamento — igreja, noivo, padrinhos, conhecidos, padre, festa, buquê, vestido de noiva, cara isso não é pra mim — eu cheguei o amar, o amar muito, mas mesmo assim não chegou nem perto do amor que eu tive por esse meu antigo amor, então eu não aceitei. Derick Brock era o nome dele, depois que terminamos eu tentei achar um abraço como o dele, mas sinceramente nenhum me protegia do modo que o de Derick. Já namorei muito outros caras fora esses da tatuagem e o do pedido de casamento, teve o que a minha melhor amiga apresento, teve um que o meu melhor amigo morria de ciúmes e coloca defeito até na unha do pé do garoto, teve também um que eu conheci no trem, na balada, e muitos outros caras, mas nenhum conseguiu me deixar como Derick me deixava, totalmente apaixonada. As vezes eu me pergunto o por que de eu ter me prendido tanto a ele, e me pergunto se ele por algum acaso se prendeu a mim também, se ele talvez pelo menos lembra de mim, ou talvez se ele lembra da minha risada, ou de alguma piadinha sem graça, ou pelo menos do meu nome, me pergunto se ele também procurava em outro alguém o que ele sabia que só eu encontraria em mim, se ele lembra das nossas inúmeras brigas, das nossas conversas sem sentidos algum, talvez ele nem se lembre do meu nome, ou do meu sobrenome que ele tanto gostava de zoar, ou do meu sotaque que ele dizia ser estranho, talvez ele até esteja noivo, eu não sei de nada da vida dele, já não sei o número do celular, o endereço, se ele ainda tem o mesmo sorriso e o mesmo jeito de andar, mas eu sei que existe algum motivo pelo qual eu ainda seja apegada tanto a ele, é como se estivesse faltando algo entre a gente, é como se a nossa história ainda estivesse faltando um final, os ‘felizes até quando der, até quando um aguentar acordar e ver o sorrio um do outro’. Talvez seja isso, talvez ainda falte um pedaço da nossa história para ser terminada. Eu não sei explicar direito, mas sei que ele ainda me tira o sono, e me faz rir no meio da rua. Amor é muito complicado, saudade é complicado, lembranças são complicadas, eu sou muito complicada, e tudo isso junto, cara, é muita compilação. E quando me toquei o filme infantil já havia acabado a muito tempo, já era dia e algumas pessoas estavam acordado e eu estava me preparando para dormir, bem, dormir se o despertador não tivesse tocado bem na hora que eu estava fechando os olhos e ele dizia — hora de ir trabalhar, agora você cresceu, agora tem que trabalhar para ser independente, não era isso que você queria? — E eu apenas me levantei e fui me arrumar, era isso, mas um dia normal de trabalho.”
— Ela estava certa, ainda faltava um pedaço da história desse tal antigo amor, Derick Brock, mas estava errada em uma coisa, não seria só um dia normal de trabalho. Quando ela chegou no trabalho havia um novo funcionário, tinha o mesmo sorriso que o seu antigo amor, o mesmo jeito de andar, e por incrível que pareça era o seu antigo amor, o próprio, que para ela não era tao antigo assim, Brenda Liberali.